O buraco do lado da torre
izabel antunes de sousa lopes, setembro de 2026
Ninguém via nada ao longo do horizonte, mas, sentia se um
odor suave carregado pelo vento, vindo dos arredores da enorme torre.
Os transeuntes atribuíam os mais variados significados para
origem daquele odor.
É um giroflex. Sim so pode ser um giroflex.
Penso ser um giroflax, dizia o outro.
Nada disso, é um hipoflex
Dona cassiez, ficava atônita, queria descobrir o que era
aqueles flex, virando o nariz de um lado para o outro com os olhos estupefatos
a mexa branco do cabelo arrepiado, mais arrepiado ainda.
Que esses guruflexs são, meu Deus, seriam alienígenas,
perguntavam as senhoras e os senhorios
A torre em tom de rosa, estava, além das cores, agora ela
era perfumada
Um homenzinho acompanhado de uma obesa senhora, disse, temos
que descobrir de onde vem esse odor
E procuraram e procuraram, foram de casa em casa, luparam e
lunetaram janelas e sacadas e nada. Nada de novo. Ate que, uma menininha de
pintas pardas na bochecha gordinha e de nariz bem fino e longo, gritou
Olha olha esta vindo daqui. Foi um aue... correria total. A
menina orgulhosa apontava para o chão, e la estava um minúsculo buraquinho
soltando um vaporzinho bem cheiroso. Era como se uma agulha estivesse quebrado
e ficado enterrada no chão, bem firme canalizando o vapor.
Começaram a surgir as teorias, vulcão de perfume, bruxaria
se misturava aos personagens flexs e flaxs anteriores, abrindo mais leques para
investigações.
Pelo menos sabemos onde é que ele sai, vamos pra casa.
Um dos transeuntes, ficou parado, enquanto todos se
recolhiam
Virou uma rua e entrou numa porta cheia de luzes piscantes.
Era um lugar movimentado e ele se aproxima de um casal. O homem cabelo preto,
cortado reto, como a machadadas e ao meio dorso. A mulher roliça, rosa, peito
exaltado e apertado no espartilho de um roxo escuro, amarrado com fitas
douradas. O rosto dela todo cheio de carmim e seda. Uma cintura feita a mão
pela pressão do espartilho, fazia a uma ampulheta.
Os três se entreolharam, conversaram e foram até o fundo da
casa. O espaço foi se afunilando e uma escada dourada e repleta de perfumes
ocupou o final do corredor. Uma espécie de rabo de dinossauro esculpido em
boticas douradas, tomou conta do
ambiente. Os três subiam lentamente cada lance da escada. Eu, ofegante os
acompanhava. E vi, quando a mulher abre uma gaveta e pega uma especie de
alicate, suspende e puxa a grande agulha. Em seguida, pede uma pa, para limpar
os vidros que caíram ao chão, devido ao choque com a ampola que o abastecia e
que quebrou a agulha.
Vira ao seu amigo e diz, obrigado por descobrir onde havia
perdido nossa agulha.
Agora é so fechar. Pega um pouco de cimento e tapa o buraco.
No dia seguinte a multidão, que visita sempre a torre, procura
o buraco.
Gritam entre si, onde esta o buraco ao lado da torre, onde
esta giroflex, flax e guruflex...
Mas, para surpresa da menininha do nariz fino dos demais, o perfume tinha sumido e o fato caiu onde caem os boatos, mesmo com uma pontinha de fato. No poderoso buraco do esquecimento.
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